Imagine
uma pequena cidade do interior da Bahia. Lá todos se conhecem e vivem
suas vidas pacatamente. Passam seus dias entre o trabalho e seus
afazeres comuns a todos os cidadãos.
Porém,
essa cidadezinha pacata tem um lixeiro honesto. Isso por si só não
teria qualquer importância, afinal, honestidade é uma qualidade comum a
todas as pessoas. Não é mesmo? Contudo, aqui em nosso país, honestidade
virou virtude e fato inusitado. Tantas são as mamatas e negociatas
assumidas e defendidas nos noticiários das TVs por toda a nação, que o
brasileiro passou a acreditar que, honestidade, é sinal de burrice.
Esse
lixeiro, de nome Evandro, ganha apenas R$ 350,00 por mês. Na cidade, e
em muitas outras, esse é o salário base da população. Já que a maioria
dos habitantes depende única e exclusivamente dos empregos da prefeitura
e das pensões e aposentadorias do INSS.
Um
belo dia, Evandro, foi buscar seu salário na prefeitura. Estava calor e
ele havia bebido muita água. Apertado, resolveu ir ao banheiro se
aliviar. Ao chegar na privada, uma mala estava abandonada lá. Curioso,
Evandro resolveu abrir a mala. Uma imagem incrível e assustadora brilhou
diante de seus olhos: Na mala, milhares de reais repousavam
tranqüilamente. Quase doze anos de salário (R$ 50.000,00), despertaram
em seus pensamentos sonhos de uma vida melhor; para ele e sua família.
Mas havia um problema: o dinheiro não era dele.
Sua
mãe sempre o educara com dificuldades e privações. Mas dizia que a
melhor coisa da vida era uma consciência tranqüila. Deitar a cabeça no
travesseiro à noite e dormir, era uma benção para poucos. Reservada
apenas para as pessoas honestas e cumpridoras de seus deveres. Pensou,
pensou e chegou à conclusão de que deveria agir como homem de bem.
Procuraria o dono do dinheiro e o devolveria. Afinal, estava na
prefeitura, e aquele dinheiro todo, poderia ser para alguma obra
importante. Talvez, uma escola, quem sabe. Todo esse dilema e reflexões,
não levaram mais que um segundo para atravessar sua mente. Afinal,
desde que abrira a mala, já sabia o que iria fazer: Devolveria tudo.
Sem
ter condições de descobrir o dono e nem meios para procurá-lo, nosso
herói, buscou a pessoa mais confiável que trabalhava naquele momento na
prefeitura: O Chefe de gabinete do prefeito.
Foi
até o gabinete, contou sua história a um “surpreso” assessor e, feliz
com sua honestidade, entregou a mala com o dinheiro sem nem tocar em uma
única nota sequer. O funcionário solícito garantiu que o prefeito seria
avisado e que o proprietário seria achado. Certamente, feliz em
recuperar seu dinheiro, haveria de gratificar Evandro.
Saiu
da prefeitura com a alma lavada. Afinal, honrara sua mãe a a criação
devotada; cheia de sabedoria que ela lhe dera. Mantivera sua honra e sua
honestidade. Estava feliz. Chegou em casa e contou para sua mãe o que
acontecera.
Sua
mãe, feliz e realizada, contou para sua amiga, que contou para a
família e a vizinha como o filho de sua melhor amiga fora honesto e
correto: “Se fosse eu, não devolvia”. Assumiu sem pudores.
E
assim, de boca em boca, a notícia se espalhou pela cidade e chegou até a
imprensa local. Curiosos, os repórteres da cidadezinha e das cidades
vizinhas, entrevistaram Evandro. Ele confirmou toda a saga. Agora
faltava apenas falar com o outro personagem dessa epopéia brasileira: O
assessor e chefe de gabinete do prefeito.
Foram
à prefeitura e, recebidos com sorrisos e rapapés, fizeram as perguntas
de praxe sobre a incrível história. Queriam saber se o dono da “bolada”
apareceu. Uma expressão de surpresa e espanto surgiu na face do solícito
assessor: “Dinheiro? Mala? Gari Evandro? Não sei do que vocês estão
falando”.
Fuzuê
geral. O prefeito diz que foi “intriga da oposição” e “armação
política”; o assessor diz que “não recebeu nada”; o fato é que o
dinheiro desapareceu sem deixar vestígios. Tragado por um vórtice
temporal ou um buraco negro que nem Einstein conseguiria explicar.
Evandro,
o gari? Bem, esse foi chamado de mentiroso pelos políticos da cidade,
taxado de safado e sua família e ele vivem agora com medo das ameaças de
morte e de homens que passaram a rondar sua humilde casa gritando para
que desminta sua história.
Moral da história? Num país onde ladrão é chamado de “Vossa Excelência”, honesto ou é burro ou é otário.

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